setembro 09, 2003


persona

“O vale das sombras da morte; das grandes mortes e de todas as pequeninas mortes. A morte é o caminho da transfiguração. O que quiser salvar a vida deve perdê-la. Homens e mulheres vivem a tentar perder as vida – a vida corrupta, inútil, sem razão de ser, das suas personalidades vulgares. Sempre a tentar livrar-se delas por mil e um processos diversos. Pelo frenesi do jogo e do proselitismo religioso; pelas monomanias da avareza e da perversão, das pesquisas cientificas, do sectarismo e da ambição; pelas alucinações compensatórias do álcool, da leitura, do devaneio, da morfina; pelos delírios do ópio, do cinema e do ritual; pelas selváticas epilepsias do entusiasmo político e do prazer erótico; pelos estupores do veronal e da exaustação. Escapar; esquecer a velha e fastidiosa identidade; converter-se em outrem, ou melhor, em outra coisa, num mero corpo estranhamente entorpecido ou mais sensitivo que de ordinário; quando não, um mero estado de espirito impessoal, um modo de consciência desindividualizada. Que felicidade! Que alivio divino! Mesmo para os que ainda não tinham percebido que havia, na sua condição, algo que precisasse de alivio.”

in “Também o cisne morre”, Aldous Huxley, Colecção Dois Mundos, Edição «Livros do brasil» Lisboa

Nota: Todos os trabalhos aqui publicados, salvo quando indicado o oposto, são da minha autoria. As aparentes pinturas são habitualmente realizadas em Corel Painter e/ou Adobe Photoshop com a ajuda indispensável de uma mesa digitalizadora.

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